Saudades de infância
- 15 de out. de 2017
- 3 min de leitura
Durante o último feriado – Dia de Nossa Senhora Aparecida para uns, Dia das Crianças para outros – aproveitei para colocar em dia minha leitura.
Entre fotos e mais fotos de crianças em minha timeline, de amigos e colegas que aproveitaram a ocasião para recordar a infância, encontrei um parágrafo que me chamou bastante atenção em um livro. Basicamente, ele explica o significado da palavra “Añoranza”: “Sentir falta do tempo em que éramos crianças, quando os dias se entremeavam uns nos outros e a impermanência não tinha significado nenhum. É o sentimento de ser amado de uma maneira que somos incapazes de reproduzir. É a dedicação que se experimenta uma vez. É tudo que uma pessoa não consegue traduzir em palavras”.
Talvez “añoranza” seja a palavra em espanhol mais próxima do que chamamos de “saudade”. E... talvez, a nossa infância seja a nossa forma mais genuína e pura de sentir saudades.
Tive uma infância muito feliz, e volta e meia tento me lembrar dos detalhes com medo de algum dia esquece-los. Tive pais zelosos e dedicados, que se preocuparam em criar boas filhas.
Recordo-me que, em uma ocasião, queria porque queria uma boneca quase do meu tamanho que havia visto no supermercado. Ela era cara e meus pais não quiseram comprar. Passados alguns dias, fiquei doente, e nada fazia com que eu melhorasse. Meus pais então, com pena, decidiram comprar a tal boneca. Lembro-me com perfeição daquela Larissa segurando uma caixa enorme, com um sorriso de orelha a orelha, entrando em casa. Foi cura imediata e chantagem barata, eu sei!
Era uma menina tímida, mas sempre com uma grande melhor amiga em cada etapa da vida.
Tive a sorte de estudar em uma escola que utilizada o Método Montessori (“estudo era prioridade”, disse minha mãe).
Maria Montessori, médica e pedagoga, defendia uma concepção de educação que se estende além dos limites do acúmulo de informações. O objetivo da escola é a formação integral do jovem, uma "educação para a vida". A filosofia e os métodos elaborados pela médica italiana procuram desenvolver o potencial criativo desde a primeira infância, associando-o à vontade de aprender - conceito que ela considerava inerente a todos os seres humanos.
Na escola aprendi o significado de cooperar, compartilhar, cuidar, interagir. Aprendi o que todos nós aprendemos na escola, mas de uma maneira que permitiu que eu mantivesse minha imaginação, minha criatividade e meu interesse pela arte e pela música.
Minha infância tinha cheiro de chocolate de guarda-chuvinha, de salgadinho da casa da vó, de bubbaloo. Tinha cor de afeto, de amor. Desde os incentivos da minha mãe para estudar, para aprender a nadar, para falar inglês, até a paciência do meu pai para trocar cuidadosamente os curativos de cada queda de bicicleta. Desde os 8 anos de ballet até aprender a jogar xadrez.
Uma infância em que as preocupações eram passar de ano, tirar boas notas, arrumar o quarto e fazer negociações de brinquedos com minha irmã.
Acho que me sentia uma heroína quando era criança. Ia todos os dias no parquinho dos “pequenininhos” na escola para me assegurar que minha irmã estava bem. Uma vez, sonhei que as plantas da entrada de nossa casa viraram carnívoras, e eu (claro!) salvei todo mundo!
Enquanto isso, a Fifi, nossa cachorrinha que viveu 17 anos, estava ali, esperando uma desatenção para subir as escadas enlouquecidamente para acordar a gente para brincar.
Cada vez que me lembro de um detalhe ou outro, tenho mais e mais certeza de que sou uma pessoa de sorte. Que tenho uma família maravilhosa que me ensinou boa parte de quem sou hoje.
Por isso e por muito mais, serei eternamente grata!
Como é bom poder sentir “añoranza” com um sorriso no rosto e lágrimas de felicidade nos olhos. Como é bom sentir saudades!





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