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Sobre gratidão, contentamento e “contemplamento”

  • 4 de fev. de 2017
  • 3 min de leitura

Acho que nunca tivemos tanto uso da palavra “gratidão” como hoje em dia. Milhares de publicações com essa hashtag, milhares de textos sobre como vive-se melhor quando se pratica a gratidão.

Gratidão é uma forma de reconhecimento e agradecimento. É você estar vivendo o presente e reconhecer uma boa ação. É você relembrar o passado e agradecer tudo o que já viveu.

Nunca se falou tanto sobre a busca pelo equilíbrio, pelo bem-estar, pela sensação de paz e serenidade como falamos agora. Trabalhamos tanto, nos cobramos tanto, esperamos tanto que a felicidade parece sempre mais e mais distante.

E é onde encaixo a palavra “contentamento”. Erroneamente, temos a tendência de relacionar o ato de contentar-se com uma certa estagnação. “Não vou me contentar com pouco” – quantas vezes não ouvimos isso?

Contentamento está relacionado a uma expectativa “completada”, à sensação de prazer, de satisfação. Não seria isso um sentimento de felicidade? O “torna-se contente”?

Considero-me uma pessoa que desfruta bastante a vida e ao mesmo sempre que sempre teve problemas com o tempo. Aquela sensação de que estamos perdendo tempo ou de que não nos dará tempo é algo que caminha bastante comigo. Nessa ânsia de viver, me lembro que quando era adolescente dormia super pouco (afinal, dormir era perda de tempo). Viajei o mundo, aprendi muito e tenho vivido a vida de forma intensa.

Ainda assim, muitas vezes penso se estou no caminho certo. Se estou aproveitando a vida da forma correta, se não estou deixando nada pra trás sem perceber. Porque o tempo (ah! Novamente o tempo!) não voltará.

Se isso acontece comigo, é muito provável que aconteça com outras pessoas que vivem intensamente, com pessoas que trabalham intensamente e não percebem nem o dia passar, com pessoas que vivem menos intensamente e saem da cama quando o dia já está na metade, e com pessoas que simplesmente vivem. E é aqui que entra o “contemplamento”.

Mantenho a palavra “contemplamento” entre aspas não só para destacá-la, mas porque ela não existe oficialmente em nosso dicionário. No entanto, acho que faz mais sentido do que contemplação. Entendo por “contemplamento” a admiração por algo ou alguém, a análise com atenção e zelo, a atenção e o reconhecimento, a paciência e a tolerância. Em diversas religiões, “contemplação” significa alcançar a Deus através da vivência pessoal e não somente através do processo discursivo. Um encontro com si mesmo, a meditação.

Hoje, praticar a gratidão e o “contemplamento” são extremamente difíceis, pois ambos demandam uma pausa de reflexão e quase nunca temos tempo para isso. Contentar-se é para os fracos. Temos que buscar sempre mais.

Às vezes me pergunto quantas pessoas recebem diariamente doses de felicidade e não se contentam com elas, o que faz com que elas passem despercebidas e deixem de ser contempladas. E garanto que não é proposital. O que acontece é que deixamos de enxergar. Criamos filtros em nossa visão e em nosso pensar.

Esses dias assisti um vídeo de uma criança que recebeu um presente dos pais. Uma caixa de presente e, dentro dela, um clip. A alegria, o sentimento de gratidão, o “contemplamento” e a sensação de que aquilo era suficiente para ela eram admiráveis.

Enquanto isso, estamos aqui, adultos cada vez mais perdidos, cidadãos cada vez mais frustrados e fechados para a felicidade que tanto buscamos. Quando foi que nos tornamos tão tontos?

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Olha a Lá!

Espírito aventureiro e alma viajante. Com uma personalidade que transita entre o rock e o hippie, entre o equilíbrio e a desordem. Apaixonada pela vida, pela arte, pelos vinhos e pelo novo.

 

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